Monday, January 16, 2006

The Way We Slay (ou Like a Candle in The Wind)

Era de uma complexidade quântica encontrar lenha que ardesse com facilidade. Parecia-me de uma indecente intransponibilidade, dar o pulo... o salto para o patamar superior. O ponto em que largássemos a pequenez do comentário fratricida (objectivado no trespassar de lâminas semânticas nas costas dos frangos musicais que proliferam na ignorância de um público indiferente), e ascender ao brilho da prova científica.

Encontrar uma pontinha de um véu, que nos desse ocasião de deflagrar o escândalo e incendiar o esterco ignóbil que tanto teima em persistir como uma das características mais proeminentes do perfil "tuga": o amiguismo. Talvez para muitos de vós, isto não será senão uma desilusão, mas decidimos escrever sobre o que se segue, porque é algo que achamos ser a única coisa que parece conseguir elevar-se ao hype que tanto desconforto nos causa (ou não).

Ora... isto que comentarei já é sabido dos mais atentos, porque recebemos um mail a sugerir-nos a leitura de uma página - que realmente nos causou a fúria necessária para este post.

Os diversos empregados da revista Danceclub certamente ir-se-ão regojizar com o que vão ler a seguir. Qual quermesse americana em que o patrão se dispõe a meter a fronha num buraquinho e se presta a levar com um balão de água nos palitos, dos seus empregados inúmeros, que aproveitam esse "sabbath" para timidamente soltarem a franga, pagando fartos 10 dólares para humilhar o Córónéu... tudo sob a auspícia defesa de que é brincadeira (e é essa também a nossa auspícia defesa - de facto não somos senão uns brincalhões, com frequentes tiradas de mau gosto).

Já perdemos todos o conto às inúmeras vezes que Zouk aparece na capa desta edição, ostentando um par de óculos, cuja marca lhe deve pagar principescamente para os publicitar e que relembram qualquer personagem rucambulesca participante nas corridas de meia-noite na ponte Vasco da Gama, quais donos de bólides kitados com colunas de 15000 watts a debitarem The Sound of Tunning vol. VI (ou até o último CD da Sonic misturado pelo Expander que alegremente receberam com a compra do último número da revista supra-citada); e tantas vezes nos interrogámos: O que raio faz deste gajo um tipo tão especial? E principalmente... (até vou dar aqui umas linhas para a pergunta se ler bem, já que é tão pertinente):
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O QUE RAIO É UM ZOUK?!?!
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Eu acho que é um termo que designa um movimento musical relativo a emigrantes jamaicanos e africanos, baseado nos ritmos soca e dancehall. Será que tem algo a ver com prógauzzz, que me escapa?! E já agora, o house progressivo, é progressivo em relação ao quê? E porque é que os recibos verdes são azuis?

(e já agora, o que é um "tha"?... será um "the", mais gordo? será no feminino? será uma estranha conversão, a meio caminho (para dialecto tribal-prog-lingo) da já abusiva utilização da palavra "the" que os DA Providers haviam feito?)
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De facto, há quem diga que o verdadeiro Zézé Camarinha é o Pete Tha Zouk... o que não sabíamos é que vai votar no Cavaco. Isto que se segue não pretende ofender crenças políticas, mas sejamos frontais: o Professor preocupa-se, antes de mais, com o sucesso económico de tudo. E mais, preocupa-se com o sucesso, antes do sucesso económico. Não me esqueço do movimento MP3, que faz o Soares parecer uma velha traveca de lábios pintados, mas para poder chegar onde quero (e a minha crítica irá de encontro a pessoas, e não a ideologias), vou ter de usar o Cavaquito, embora poderia usar o Soares se conseguisse com isso dizer o que pretendo (perdoem-me os eleitores).

Encenação fictícia:

Cavaco - "Ora bem, menina... Tenho de me relacionar com esta juventude, com esta malta... jóvem... sabe? É que eu posso parecer ter a expressividade e entusiasmo aparente de um monge tibetano votado ao silêncio, ligado a Life-support, mas no fundo quero é - como a malta diz - curtir!"

Menina - "Ora, senhor Aníbal, há que procurar jovens que tenham as mesmas características que o senhor: capitalistas convictos e desprovidos de escrúpulos ou de sentido de honra. Capazes de, como o senhor, despedir milhares para ir de encontro às obrigações económicas europeias, sem mexer nas reformas milionárias dos bodes que se pastam nas verdes reservas monetárias da Segurança Social."

Cavaco - "Sim, menina... quem recomenda?"

Menina - "Já havia pensado nisso, e escolhi alguns dos jovens mais imperialistas do site de apoio a vossa excelência, para colocar no pódio dos neo-cavaquistas. São eles...

Nuno Rodrigues, Fundador da Revista Dance Club
e
Pedro Tó (Pete Tha Zouk), DJ

(em http://www.cavacosilva.pt/?id_categoria=43)"

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Brilhante! Este site expõe uma relação homochungus perfeita. O amigo que dá a mão ao amigo... o complot, o arranjinho, a mézinha, o jeito... tudo enrolado e sintetizado lindamente num smiley composto de MDMA. E finalmente, o poster de Cavaco que parece um flyer para uma actuação de DJ Haniball daSilva (Subliminal/Siesta/Saw/PSD) na discoteca Kadok, bem pertinho da sua bombinha petrolífera da fortuna.



Alguém nesta campanha se lembrou de nós. Já somos um público alvo para eleitorado. Amantes de música e clubbers, "a malta que gosta de abanar o capacete" já se tornou uma fatia do bolo político. Nem o Cavaco é indiferente aos posters que no verão florescem no Sul... PETE THA ZOUK @ CONCHINCHINA CLUB, sponsored by Bacardi.

Já que o Nuno Rodrigues dá tantos jeitinhos ao Pit, e garante que o grande Tó será sucedido por um tipo tão menos culto, e sem história - levado ao colinho desde a sua eleição como revelação (tão reveladora como o casamento do Elton John) pela revista que mais contribui para a massificação e normatização da música electrónica, dando um destaque estúpidamente irreal aos home-chungus-boys. Curiosamente, esta massa de artistas apoiados e cujo rabinho é lavado e seco com panos de seda, não é lá grande reflexo da realidade clubística do país (particularmente nos centros urbanos, onde ainda há, a par da falta de crítica, uma grande curiosidade insatisfeita por parte do público).

Era inevitável termos de vos fratricidar, Danceclubbers, é dolorosamente verídico que grande parte dos artigos que decidem destacar são relativos a artistas retrógrados, de mente fechada, que mal falam português (ou quando são estrangeiros, raramente dizem algo que vale a pena ler). O traibaláuzzz continua a ser uma ridícula aposta vossa, e a técnica parece ser, pelas inúmeras colunas, predominante em relação à cultura e à riqueza de espírito artístico. Sim, é verdade que têm de vender a revista... mas, já repararam que têm um perfeito monopólio mediático em Portugal? O argumento de que a "merda é que vende" não nos satisfaz, e suponho que a muita gente que faça mais que arrumar carros também não... não há onde ler sobre música de "dança" ou o fenómeno de clubbing sem ser convosco, ou na internet, e muitos gostariam de ler sobre mais gente do que o Zouk e o Expander.

E agora, ainda tentar enrolar o tribaláuzzz com o Cavaco, e com o prog-de-segunda, e tudo isso... Credo! tenho medo de saír à noite... um dia desses quero ir beber um copo com a cheirosa Dalila enquanto o Super Mário engata o Monchique, e aparece o Mário Soares a discursar Accapella por cima de um set de funk, ou o Louçã surge para animar as hostes, inflamando a multidão que escuta um concerto de LCD Soundsystem. Nem pode mais o comum homochungus "abanar o capacete" - e os brinquinhos doirados que combinam bem com a meiinha por cima da calcita - sem se lembrar do patriarcal Cavaco, e quanto este parece curtir música "muito pumping".

Tentar vender tudo como um produto único, parece-me tão curioso como preocupante. E realmente, agradeço aos céus por sermos um país pequeno, porque podemos criticar os americanos por tudo e por nada, mas este tipo de comportamentos é tristemente paralelo aos imensos escândalos de arranjinhos da actual presidência (que nem precisa de ser fratricidada, coitada) - os djs revelação estão cheios de trabalho, bem como a Halliburton está cheia de petróleo e contratos de construção. A sorte do planeta é que realmente, esta é a escala comparável entre os dois países em questão: polémica mundial & leve crítica num blog duvidoso. E nesta altura, muitos de vós poderão estar a pensar "se calhar o Scar é o Pacheco Pereira" - como alguém num comment uma vez disse - e se calhor sou!

Mas também, aposto que não falta pessoal igualmente risível a apoiar o Soares publicamente, e no fim fico naquela: venha o diabo e escolha. Parece que só existem dois candidatos, dois partidos, e eventualmente dois estilos de música de clube – a boa de se apoiar (por ser de fácil consumo – e não há muito por onde escolher) e a chata de se apoiar (o que pode ser muita coisa). Tem piada que a chata (leia-se, underground), depois de dar luta, torna-se a fácil (quando não os vences, junta-te a eles). Os que não o fazem, são frequentemente “mártires” – como já o dissemos indirectamente.

Professor Aníbal, desculpe qualquer coisinha, mas sem querer dizer em quem votarei, posso ao menos lembrar-me que, do mal o menos: felizmente tenho a liberdade de poder escolher a música que oiço.

Scar, o fruticultor (que só gosta de laranjas sem aditivos)

PS - Quero, de resto, agradecer ao nosso leitor que sugeriu indagarmos nesta questão - valeu!